POR RICARDO BRANDT, FAUSTO MACEDO E JULIA AFFONSO

Juiz da Lava Jato avalia que País ‘não pode ficar parado ou andar para trás’ e declara que ‘divergências políticas não tornam as pessoas inimigas’

Em meio à explosão das ruas depois da divulgação dos grampos que pegaram Lula, o juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, disse nesta quinta-feira, 17, que ‘numa democracia divergências políticas constituem algo normal’. Para ele, ‘o fato de alguém ser divergente não o transforma em inimigo’.

“Não estamos em guerra e quem é diferente de nós não é nazista nem fascista”, disse Moro no Seminário sobre Combate à Lavagem de Dinheiro promovido pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), em Curitiba. “Agressões gratuitas são incompatíveis com democracia.”

O juiz não citou nomes em seu pronunciamento. Ao falar de suas decisões de mandar prender e fazer buscas e conduções coercitivas, ele foi taxativo. “Aqui, até o príncipe está sujeito à lei.”

Moro mandou conduzir Lula à força no dia 4 de março para depor na Operação Aletheia, desdobramento da Lava Jato. Por quase três horas, o ex-presidente depôs para a Polícia Federal em inquérito que o investiga por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro.

Nesta quarta-feira, 16, Moro tornou público o acervo de grampos da Aletheia, inclusive diálogos de Lula com a presidente Dilma. Os diálogos do petista provocaram revolta nas ruas.

Moro disse esperar que as manifestações sejam pacíficas. Segundo ele, ‘tem ocorrido muito barulho sobre a Lava Jato’. Recomendou ‘calma’ e destacou que, na democracia, divergências políticas ‘são normais e as divergências de crenças não tornam as pessoas inimigas’.

Ao falar do impacto da Lava Jato na economia, o magistrado observou. “Por mais que sejam grandes as nossas dificuldades, temos que ter otimismo em relação ao futuro com uma dose de ceticismo. Daqui a mil anos, quando nossos sucessores, nossos filhos, nossos netos, olharem para trás não vão ver esse momento como a nossa hora mais escura, mas sim como o nosso melhor momento.”

“Quem sabe se vencermos essa recessão brutal e esse quadro de corrupção sistêmica, daqui a 20, 30 anos possamos olhar para trás e pensar que esse foi um dos melhores momentos da democracia brasileira, assim como foi a vitória contra a ditadura militar, assim como foi a recuperação econômica dos anos 1990. Se não enfrentarmos agora, (a corrupção) volta com mais força daqui a 20 ou 30 anos.”

“Não podemos ficar parados ou andar para trás”, sugeriu. “Talvez (a Lava Jato) provoque um impacto a curto prazo, mas a longo prazo não é melhor que o domínio econômico não seja viciado por grandes esquemas de corrupção?”

Ele alertou para o custo que os malfeitos provocam no Tesouro de um país. Citou um caso concreto da grande investigação sobre cartel e propinas na Petrobrás. “A Refinaria de Abreu e Lima foi orçada em 2 bilhões de dólares, foi para 18 bilhões de dólares. Que digam que o orçamento inicial era precário, mas de 2 para 18 é um absurdo.”

Arrancou gargalhadas da plateia que o aplaudiu. “As coisas mudam se trabalharmos para que elas mudem”, disse o juiz. “Parece até frase de autoajuda.”

Em sua palestra, para dar exemplo de superação, lembrou Winston Churchill, primeiro ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial nos anos 1940. “Estava na lona, o exército britânico cercado. Não estamos em guerra e quem é diferente de nós não é nazista nem fascista.”